Você já pensou em experimentar tratar o seu filho com acupuntura?
“Apesar de ser encarada por muitas pessoas como uma terapia alternativa,
a técnica é reconhecida no Brasil como uma especialidade médica,
aplicada com sucesso em áreas como pediatria, ortopedia e ginecologia”,
esclarece a pediatra Márcia Yamamura, responsável pelo Ambulatório de
Acupuntura e Pediatria e Adolescência da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp).

Para a medicina tradicional chinesa, a má distribuição da energia vital
é a responsável pelas enfermidades do corpo, desde o nosso nascimento.
Ao estimular determinados pontos, o organismo conseguiria restabelecer
seu equilíbrio, combatendo esses males. Entretanto, o pediatra Lo Sz
Hsien, do Colégio Médico de Acupuntura de São Paulo, conta que o método
ainda encontra resistência no Ocidente, entre os pais de crianças –
muitos deixam de adotá-lo por temerem que as agulhas machuquem seus
filhos ou por terem dificuldade de acreditar em conceitos abstratos,
como o da energia vital.
Apesar de a terapia enfrentar certa descrença, porém, os benefícios são
comprovados: por ressonância magnética, é possível notar que o cérebro é
ativado em diferentes áreas, conforme os pontos da acupuntura
são acionados, segundo explicam os especialistas ouvidos pela CRESCER.
“Ao receber o estímulo, o cérebro promove a liberação de substâncias
como serotonina, dopamina e noradrenalina que, por sua vez, vão atuar
nos sistemas endocrinológico e imunológico – e eles, finalmente, vão
agir nos demais órgãos do corpo, favorecendo-os”, ensina Hsien.
QUANDO A ACUPUNTURA É RECOMENDADA?
A acupuntura praticamente não apresenta contraindicações. A única
ressalva são crianças com problemas de coagulação, que não devem se
submeter à versão com agulhas, a fim de evitar sangramentos. O método é
recomendado tanto para tratar ocorrências comuns nos primeiros anos de
vida – entre elas, alterações no sono e no intestino, perda de apetite,
agitação e irritação – quanto para simplesmente equilibrar a imunidade, prevenindo alergias, gripes e outros problemas respiratórios.
O trabalho do pediatra acupunturista segue o protocolo de qualquer
consulta pediátrica, com pesagem da criança, medição de crescimento e
avaliação de eventuais exames. Além disso, o profissional analisa duas
regiões capazes de revelar o estado de saúde, com base no critério
oriental: a língua e a pulsação. “Características como cor, textura,
formato e presença de saburra na língua (aquela crosta branca), além de
intensidade e frequência dos batimentos cardíacos, fornecem informações
sobre os sistemas internos, indicando se há uma disfunção. A partir daí,
definimos se a acupuntura é o tratamento adequado ou se devemos
recorrer a outra abordagem, como a medicação”, diz Hsien.
Em certos casos, como os de gripes e resfriados, não compensa retirar o
bebê de casa para realizar as sessões de acupuntura, já que essas
doenças são autolimitadas – ou seja, regridem espontaneamente. Outro
exemplo são as cólicas: o tratamento geralmente se mostra mais efetivo a partir de outras estratégias.
Quem quiser testar a técnica para tratar seu filho deve primeiro
escolher um profissional de confiança – de preferência, com
especialização em pediatria. Juntos, vocês irão definir a melhor
abordagem de tratamento: com agulhas (são finas, bem menores do que as
usadas em adultos, e posicionadas superficialmente na pele), sementes
pequenas como a de mostarda, laser, ventosas ou pressão manual. Os
especialistas foram unânimes em afirmar que os resultados promovidos
pelas agulhas são mais rápidos e eficientes. No entanto, as demais
alternativas são válidas, caso seu filho tenha muita aflição das picadas
ou arranque o esparadrapo com as sementes (que permanecem fixadas após a
sessão), por exemplo.
Se optar pelas agulhas, verifique se a clínica oferece todo o material
necessário. Em serviços gratuitos, como no do Ambulatório de Acupuntura e
Pediatria e Adolescência da Unifesp, é preciso levar um kit com os
acessórios descartáveis. A frequência das sessões varia de acordo com o
diagnóstico, mas geralmente vai de duas a quatro vezes por semana. A
conduta em aplicação infantil também é diferente. Enquanto em adultos é
comum estimular até 30 pontos por sessão, nos bebês, esse número não
costuma passar de dez, com apenas 20 segundos em cada um,
aproximadamente. A alternativa, capaz de trazer mais qualidade de vida e
saúde, tem ainda um ponto que conta bastante a seu favor: não tem
efeitos colaterais.
Entre 2 e 4 anos, as crianças começam a compreender mudanças
importantes na rotina delas, como a entrada na escola, uma eventual
separação dos pais ou morte na família. Essas situações podem despertar
sentimentos como tristeza, medo e raiva, que não devem ser ignorados.
“Acreditamos que fatores emocionais estão ligados ao desequilíbrio dos
órgãos e o consequente aparecimento de doenças”, diz o médico Lo Sz
Hsien. Nesse caso, a acupuntura é indicada para modular a imunidade da
criança (diminui as chances de adoecer), combater a ansiedade e trazer
bem-estar. Se ela tiver medo de agulhas, busque alternativas. “Além das
sementes e do laser, crianças nessa faixa etária podem ser submetidas a
sessões com ventosas magnéticas (ímãs)”, sugere o especialista. O
tratamento é indolor.
ALÍVIO PARA AS FUTURAS MÃES
Para amenizar sintomas comuns à gravidez – como azia, vômitos e dores
–, a gestante também pode apostar na acupuntura. “A técnica está
liberada nos nove meses da gestação, para atenuar inchaço, insônia, enjoo,
dores lombares e ansiedade”, afirma o pediatra Lo Sz Hsien. E as
vantagens vão além: um estudo divulgado no Encontro Anual da Sociedade
de Medicina Materno- Fetal, em Chicago (EUA), mostrou que, para diminuir
sintomas de depressão, a acupuntura é mais eficaz do que tratamentos
específicos para a doença ou massagens. No trabalho feito com 150
gestantes diagnosticadas com o transtorno, o método chinês alcançou o
maior índice de melhora. Antes de adotar a técnica, deve-se ficar atenta
a duas recomendações. “É preciso escolher um profissional capacitado,
pois existem pontos abortivos que têm de ser evitados para não antecipar
o parto ou provocar a perda do bebê”, alerta a pediatra Márcia
Yamamura. Além disso, a eletroacupuntura, feita com aparelhos elétricos
para potencializar os efeitos, também está vetada, devido ao risco de
malformação do bebê.
Fonte: http://revistacrescer.globo.com/